Despedida

Vou e levo meu instrumento,
Mas deixo minha música

Vou e levo minhas palavras,
Mas deixo minha poesia

Vou e levo meu corpo,
Mas deixo meu espírito.

Mestre Peregrino

Em mundanas peregrinações vejo rostos mutilados
Vejo olhares dilacerados, amargas feições
Mas em meio a amarguras, vejo faces resplandescentes
Vejo brilho nos olhos da esperança personificada

Privilegiado caminho, que surpresas me prepara!
Em cada curva, em cada volta, novos rostos, novas almas
O novo construindo, vejo aqueles que trabalham
Pela força do presente, germinando a terra árida

De seu jogo pela vida fazem parte as mazelas,
Com vestes sobre-humanas, transcendem todas elas.
Regam tristezas com sorrisos, desesperos com a mão amiga, Retiram pedras do caminho, dão cor e brilo onde o pó se revela.

Judiadas mochilas, não carregam pesados fardos
Transbordantes recipientes de amor pela vida
Fornecem luz a cada encontro,
Aquecem corações angustiados

Olhos de águia aguçados à beleza
Penetram tranqüilos no invisível comum
São faróis de vanguarda que derrubam os muros
Do cárcer ilusório da mente coletiva

Anônimos caminhantes, estranhos rebeldes,
Permanecem nas sombras do brilho vulgar
Seu silêncio profundo rompe fortalezas
Sua fé inabalável transforma o mundo.

Juntos à Imensidão

A mente mente desesperadamente
Frente ao presente que sente

Abala pela fala que embala
A cabala que cansada se cala

A ação com emoção é canção
Na elevação do coração à imensidão

O sorriso vivido comigo
É o princípio amigo que me faz ir contigo.

Numinação

Hoje, senti vontade de chorar.
Chorar de alegria, chorar de tristeza,
Chorar de surpresa ao me deparar com a própria ignorância,
Chorar de emoção ao perceber o êxtase da vida,

Chorar pela própria incompetência para salvar o mundo,
Chorar diante do olhar singelo de um ser discriminado,
Com tantas histórias a contar,
Com tanta vida a compartilhar.

Não me perguntem o motivo. Apenas me deixem quieto em meu canto,
Reflexivo, seguindo a lágrima que rola em minha face.
É apenas uma gota, mas traz consigo um universo, o meu universo.
Insignificante, desvela um pouco de mim mesmo.

Como sou hipócrita sem me dar conta!
Quanta névoa de ignorância ofusca minha felicidade!
Nesse pântano interior a que me deparo,
Só tenho uma certeza, de que a caminhada está apenas começando.

Serão dias e noites difíceis pela bruma que encobre o destino.
Preciso continuar, tropeçando, caindo e levantando.
A cada passo uma surpresa, um reflexo de quem sou, do que posso ser.
Sem um mapa, sou um cego trôpego pelas tortuosas trilhas da minha personalidade.

A cada curva um pedaço do tesouro que procuro,
Trancafiado no coração de quem encontro.
Neles, um mundo novo a descobrir, um novo "eu" se identifica,
Rompendo velhas estruturas, mostrando que jamais a vida será a mesma.

Então eu choro,
Sufocando a vontade de gritar ao mundo para que ele perceba essa nova luz,
De compartilhar com cada um a grandiosidade da minha descoberta.
Inútil tolice, essa luz é só minha.

Então eu choro de felicidade ao me sentir embalado pela magia do momento.
Libero meus freios, me deleito em curiosos olhares,
Repletos de sensuras, criticas, deboches,
Sinto-me um estranho.

Talvez eu seja mesmo.
Sou feliz,
Sou livre,
Sou mais eu.

Amor à vida

Por que insistes invasora, sem respeito iluminar
Meu rosto triste e magoado, sem esperança, sem sonhar?
Presunçosa e atrevida! Pensas que de Deus é filha.
Explica agora o motivo, pois minha dor não compartilhas.

Teus raios finos penetrantes cobrem tudo aos quatro cantos,
Só refletem, cor de prata, toda angústia do meu pranto.
Apaga agora esse seu brilho ofuscante e maldito.
Deixa-me em sono eterno, entrar de vez e sem conflito.

Por que relutas em mostrar essa alegria?
Minha vida é inútil, sufocada em agonia.
Sua luz que desafia meu rancor, minha tristeza,
Outras vidas tu alimentas, com fervor e com beleza.

Outras vidas? No que eu estou pensando?
Afinal, só minha angústia está importando.
Ouço sapos martelando, ouço pássaros e grilos
Sobrepondo o meu choro, meus reclames e meus gritos.

A floresta que dormia de repente me suplica:
Encha a alma de alegria, de coragem e leveza!
Vejo agora à luz da lua, como é sábia a natureza.
Em coração feliz e aberto, nenhuma dor jamais habita.

Não sei como nem de onde, chega a mim tanta energia.
Vem da mata, vem da lua, vem da terra, vem de Deus.
Aos sentimentos que destróem, de uma vez eu digo adeus.
Abro os braços à esperança, ao amor e à alegria.

Agradeço à sua luz que impediu minha partida.
És princesa encantadora, és mais, rainha de fato.
Jamais te esquecerei, eternamente serei grato.
Com carinho e persistência, me ensinaste a amar a vida.

Encontro aos quatro cantos

Quando encontra minha alma
O seu encanto
Canta ela um canto
Que conta o quanto amo você

E enquanto conto esse amor
Pelos quatro cantos
Encontro Deus no verde campo
Quando indago o quanto fiz para você merecer

Exílio

Uma luz desce dos céus
Embalando inteligências
Exilados, infelizes,
Missionários sobre a Terra

Com o suor do próprio rosto,
Ensinamos o arar do solo
Construímos grandes templos
Ingênuas pontes ao paraíso

Nossos nobres pensadores
Ensinaram e se foram
Miscigenamos com nativos
O passado foi-se ao vento

Selvagem mundo primitivo
A crueldade se instalou
Escravizamos uns aos outros
Fizemos guerra e divisão

Geramos tecnologia
Que a serviço do ego humano
Nosso berço, ignorantes,
Destruímos dia a dia

Explorada e destruída
Nossa mãe pede socorro
Aos filhos que se matam:
Corpos secos e famintos

Alguns porém levantam
A bandeira da esperança
São profetas, mensageiros
De uma ordem incompreendida

Quem tem olhos para ver
E ouvidos para ouvir
Mobilizam corações
Unem mãos a construir

No propósito comum
Em meio à crise inevitável
Geram sincronicidades
Em uma rede solidária

Rede essa que se expande,
Que transcende à matéria
Elos ligados em amor profundo
No êxtase da luz de um novo mundo

Pobres almas iludidas
De olhos fechados para a luz
Nas próprias trevas é que sucumbem
São exilados de sua Terra

E Tu Partiste

Na madrugada,
Essa lua mensageira
Teu rosto me revela
Em meus olhos estampado

Naquele jardim
Restam flores traiçoeiras
Exalando teu perfume
Que meu peito dilacera

Em meu silêncio,
Ouço derradeira
Tua voz que me sussurra
A lembrança de outra noite

Doces momentos,
Calorosos no aconchego
Vivem hoje palpitando
No sabor da nossa história

No calor do sol
Sinto frio sem teus braços,
Sem sentir teus lábios
Sem teu corpo junto ao meu

Quando alcançava
Minha alma as estrelas,
Tu partiste calada,
Sem sequer dizer adeus ...

Sem sequer dizer adeus.

Rosa Amarela

Amarelo, sol brilhante,
Fornalha ardente,
Fonte de vida.

Amarela, relação amiga,
Sem a cegueira da rubra paixão,
Sintetiza a mais pura e singela emoção.

Amarelo, Amor sem interesse, sem pecado, sem compromisso,
Simples e ingêuo fruto
De almas que cintilam a mesma luz.

Amarelo, fogo da renovação,
Em ruínas põe nossas estruturas
Para o florescer de uma nova vida.

Amarela, Luz do plexo que acolhe e conforta,
Que aquece em nossas almas
O gelo forjado pelo mundo.

Amarela, rosa de rara beleza,
Na suavidade e perfume de suas pétalas
Traz a ti minha alegria, minha paz e minha essência.

Amarelo, centro de energia que incendeia, que inquieta,
Que promove, na identificação mais sublime
De seres separados pela vida,
O reencontro sagrado sob as bênçãos de Deus.

Bodas de Ouro

Um dia, duas almas se encontraram
De seus olhos cintilaram alegrias incontidas.

Emocionados, corações batiam fortes,
Decidiram pela sorte os destinos entrelaçar.

Deste fogo, ardente e fervoroso,
Nasci belo e formoso, fui alegria em seu lar.

Fui a ilusão de rostos jovens e bonitos
Imaturos e aflitos, me chamavam de paixão.

Na infância, com carinho fui mimado,
Muito bem alimentado, cresci forte e saudável.

Nas alegrias, diversões e bons momentos,
Das atenções eu fui o centro, fui canções, fui poesia.

Mas a vida foi também dificuldades.
Sem tremer eu fui as bases da união deste casal.

Na discórdia, na doença eu fui ouvido,
Algumas vezes fui esquecido, mas jamais me ausentei.

Marquei presença na ausência, na saudade,
Mostrando que a amizade é o tesouro espiritual.

Missão cumprida. Cinqüenta anos se passaram,
Os semblantes enrugaram, os cabelos, cor de prata.

Apesar da idade, estou forte e vigoroso,
Cada vez mais poderoso, saudável e feliz.

Da vida inteira, sou agora experiência,
Presente em cada vivência, eu sou sabedoria.

Para o futuro, vejo paz e prosperidade,
Saúde e felicidade, muita fé no Creador.

A Ti, meu Deus, o meu muito obrigado
Por me permitir ser, na vida deste casal, o amor.

 
Copyright © 2005, Paulo Rathunde - Todos os direitos reservados. Website desenvolvido por Midia Arte