O Velório de Maria Gaia
Cheguei na capela por volta das quatro da tarde em tempo para acompanhar o enterro de mãe e filhos. Teria sido um velório como qualquer outro, exceto pelo fato de que os dois filhos não suportaram a morte da mãe e morreram algumas horas depois. Cena triste, mãe e filhos sendo sepultados no mesmo dia.
Seus oito irmãos estavam presentes, de luto e com semblantes de tristeza profunda. No fundo da capela, um tanto apagado pelo sofrimento, seu pai lamentava inconformado o acontecimento.
Naquele momento já não conseguia mais conter minha curiosidade por conhecer os detalhes da tragédia quando alguém comentou ao meu lado:
- Triste fim, não acha?
- É verdade – respondi na expectativa de investigar a situação – Você é amigo da família?
- Sim, visitava-os com freqüência. Acompanhei a agonia deles nas últimas décadas. Nunca o vi por aqui. É parente?
- Sou um primo distante. Na verdade, já não nos víamos há mais ou menos dois bilhões de anos.
- Então você nem chegou a conhecer Batiá e Sócius, seus dois filhos?
- Não. Recebia notícias freqüentes deles, mas nos últimos anos estavam incomunicáveis. O que aconteceu?
- É uma longa história. Vou tentar resumi-la. Maria Gaia teve seus filhos, Batiá e Sócius que cresceram fortes e sadios, em harmonia com ela por muito tempo, até a adolescência. Nessa época, Sócius resolveu fazer faculdade de ciências e foi morar mais perto da Universidade. Batiá continuou morando com a sua mãe. Ele a amava e a respeitava como um ser sagrado, como uma deusa. Em troca, sua mãe cuidava dele com muito carinho. Batiá recebia dela o que ela lhe dava, mas cuidava para protegê-la, respeitando os seus limites e a sua capacidade de recuperação. Jamais exigia dela mais do que sua energia suportava.
- E Batiá não quis ir para a faculdade?
- Ele não sentia necessidade, pois para viver em harmonia consigo mesmo e com sua mãe, ele já tinha toda a sabedoria de que precisava.
- E porque foi diferente com Sócius?
- Ele cresceu muito, ficou grande e gordo. Destruía tudo por onde passava. Como ele começou a consumir mais do que a sua mãe era capaz de suprir, teve que estudar, pesquisar novas técnicas e gerar processos mais e mais eficientes. E quanto mais crescia, mais engordava, mais necessidade tinha de alimentação e vestuário, mais tecnologia precisava para usar com eficiência cada vez maior o pouco que sua mãe lhe fornecia.
- Mas você não acha que isso foi positivo? Sua necessidade fez com que ele aprendesse muito e desenvolvesse tecnologias mais avançadas.
- De certa forma sim. O problema é que a tecnologia que ele inventava gerava mais necessidades. Ele não precisava mais apenas alimentar-se e vestir-se. Ele precisava agora de conforto, precisava agora satisfazer o seu ego adquirindo coisas. Televisão, DVD, Vídeo cassete, outra televisão, aparelho de MP3 e uma infinidade de coisas que quase não usava. E o pior é que cada produto novo que comprava, levava mais e mais sucatas para a casa de sua mãe e mais energia usava dela. Ela não dava mais conta de limpar toda a sujeira. Eram caixas, baterias, ferro-velho, produtos químicos e outros. A casa começou a ficar abarrotada e a sua mãe doente, não só pelo trabalho excessivo, mas também pelo desprezo.
- Como assim desprezo?
- Ir para a faculdade e tornar-se um cientista fez muito mal para o seu ego. Começou a achar que era auto-suficiente, que o mundo havia sido criado para ele. Reencontrar com seu irmão Batiá, após estar distante por muitos anos, resultou em uma briga totalmente injusta pela diferença de tamanho, o que deixou seu irmão inválido para o resto da vida. Batiá perdeu a sua identidade e a sua sabedoria milenar. Ao aprender um monte de coisas inúteis que seu irmão lhe ensinou à força, perdeu também a relação harmônica com sua mãe. Sócius voltou para casa e ocupou quase todo o espaço, ignorando a presença do irmão, deixando-o largado em um quarto embolorado.
- Como ficou a relação de Sócius com a mãe depois disso?
- Passou a ser unicamente de exploração. Tirava dela o que precisava para fabricar os seus “brinquedos” e só trazia de volta lixo. Ela ficou cada vez mais doente, pois não conseguia recuperar-se da exploração. Quando Sócius se deu conta de que ela estava quase morrendo, percebeu que dependia dela mais do que imaginava. Tentou reagir, mudar seu comportamento, mas já era tarde demais.
- Lamento que tenha acabado assim. Se tivesse feito algo antes, talvez tivesse evitado esta situação. Bem, obrigado pela história.
- Não há de que. A propósito, meu nome Halley e o seu?
- Andrômeda. Foi um prazer conhecê-lo.
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