Artesão do Meu Futuro

Revista Universo Espírita - junho/2005
Por Paulo Rathunde

“Tornamo-nos espectadores, reclamantes ativos e sujeitamo-nos ao que o sistema nos impõe”.

Os desafios da atualidade sugerem a necessidade urgente de um posicionamento pessoal coerente com a vida e com uma visão de futuro sustentável. O artesão do seu próprio futuro trilha os caminhos do autoconhecimento para tornar-se agente de transformação consciente e responsável.

As crenças e valores que culminaram na revolução industrial, criaram uma visão de mundo cindida que conduz à exploração e ao enriquecimento ilimitado, tendo como resultados a alienação, doenças humanas, sintomas sociais e ambientais, esforços remediadores, guerras e conflitos. Como conseqüência, observamos a insustentabilidade do Planeta que já apresenta sinais de ruptura de sua harmonia.

A destruição de culturas milenares pelo processo exploratório levou o homem a perder sua identidade e deixar de ser atuante, integrado à natureza, singular, filho de Deus. Transfere-se a responsabilidade pela própria saúde ao médico, pelo bem-estar da população ao poder público, pela definição do que é melhor ao mercado, e passa-se a ignorar os custos sociais e ambientais resultantes disso. Tornamo-nos espectadores, reclamantes ativos e sujeitamo-nos ao que o sistema nos impõe. Sem saber quem somos, geramos medo, violência, competitividade, agressividade e exploração para nos protegermos do "mundo ameaçador" que nos rodeia.

O desenvolvimento da ciência no século 20 trouxe-nos uma nova perspectiva, ainda não assimilada culturalmente.

O último século caracterizou-se como um período de contradições e de análise dos conceitos considerados verdadeiros até então. Iniciando com mudanças conceituais dramáticas - a Física Quântica e a Teoria da Relatividade-, o desenvolvimento científico e filosófico redirecionou a visão do homem para as questões da espiritualidade e da afetividade. Surgiu então uma concepção de mundo mais flexível, incerta, probabilística, a partir da percepção dos organismos vivos como totalidades integradas e auto-organizadoras.

A ciência do século 20 possibilita-nos criar uma visão de mundo transdisciplinar, na qual a realidade se desenrola sob uma teia de fenômenos inter-relacionados e interdependentes, que nos posiciona como participantes ativos da criação. Nesse contexto, nossa primeira e mais importante escolha deve ser a de servir à vida, mudando o foco de problemas para possibilidades, permitindo que ela, a vida, desdobre-se por nós gerando sincronicidades.

Essa nova visão leva-nos a um posicionamento de valorização da vida que orienta a ética, de modo que a espiritualidade adquire reconhecimento, os relacionamentos ganham destaque em relação às estruturas. E a liberdade com responsabilidade traz como resultado a sustentabilidade da vida no planeta. Essa perspectiva somente poderá nascer a partir da autotransformação, da noção de que é algo que vem de dentro, do enfrentamento individual do medo de mudar hábitos e costumes pré-estabelecidos.

A metáfora do "artesão do meu futuro" evidencia dois importantes aspectos. O primeiro é o da construção. Um artesão vislumbra suas obras e trabalha para realizá-las, uma a uma. O segundo é a idéia do trabalho artesanal, em que o trabalhador participa de cada etapa da manufatura e se sente bem naquilo que faz, pois tem uma visão ampla do processo construtivo. É agir conscientemente e com senso crítico no presente para criar novas possibilidades de futuro.

A Decisão é sua

Revista Você S/A - junho/2005

O leitor Paulo Henrique Rathunde (phr@pm21.com.br) nos enviou uma reflexão interessante sobre o resultado de nossas decisões, publicada em seu livro “Artesão do Meu Futuro (Editora PM21). “A história da civilização é fruto do conjunto de escolhas feitas. Se prolongarmos a linha do tempo pela repetição das mesmas ações, chegaremos a um futuro provável e assustador, cujos sinais já podem ser observados hoje. Precisamos contar uma nova história, construída paulatinamente com escolhas conscientes e senso crítico. Cabe a nós desenhar o futuro que queremos.

O ponto de partida é o autoconhecimento, pelo qual se adquire consciência dos modelos mentais estabelecidos e das limitantes que seduzem as pessoas a deixarem tudo como está. O presente é a oportunidade para executarmos projetos que criem uma nova realidade”, diz Paulo.

A Fé pela Razão

Revista Universo Espírita - julho/2005
Por Paulo Rathunde

“Se por um lado a fé cega escraviza pelo medo, a ciência cega escraviza pela falta de propósitos que nos façam transcender os objetivos ilusórios da matéria”.

A razão sem a fé leva à loucura científica. A fé sem a razão leva à loucura religiosa. A civilização ocidental atravessou dois grandes períodos em que o homem não pôde desenvolver plenamente o conhecimento por ter suprimido algum aspecto fundamental: na Inquisição foi sufocada a razão e no período subseqüente, a fé. O Espiritismo, sendo um processo aberto, alia razão e fé para uma compreensão maior da vida.

O interessante é que após 600 anos do final da Inquisição, nossa sociedade ainda traz resquícios de comportamentos oriundos dessa fase histórica. Muitos, aterrorizados pela possibilidade de serem “queimados vivos”, aguardam passivos a chegada de um salvador e não assumem a responsabilidade pelo seu progresso moral.

Depois houve meio milênio de ascensão científica que separou o homem ocidental de sua fé. O método científico nasceu como um messias vindo para atender às súplicas de quem se estarrecia diante das atrocidades cometidas em nome de Deus. Mas a ânsia pelo resgate da lógica empurrou o pêndulo ao outro extremo. A especialização debruçou-se sobre si a ponto de perder a conexão com seus propósitos. Não se pode negar o benefício que a Ciência trouxe para a humanidade, inclusive mostrando a incoerência da fé dissociada da razão e do censo crítico. Contudo, a Ciência sem a fé tornou o homem insensível, um estranho em seu próprio meio, explorador impiedoso da natureza, um prepotente que achou que poderia brincar de deus.

Se por um lado a fé cega escraviza pelo medo, a ciência cega escraviza pela falta de propósitos que nos façam transcender os objetivos ilusórios da matéria. É preciso uma base de conhecimentos que permita ao ser humano exercer o seu papel consciente de agente social, com senso crítico e experimentação científica, mas sem perder o contato com sua essência espiritual.

Nas últimas décadas, o pensamento ocidental direcionou seus holofotes para as tradições milenares do Oriente e encontrou uma fonte inesgotável de conhecimentos, muitos já comprovados pela própria Ciência. Culturas indígenas vêm sendo estudadas pela sabedoria que sustentam, e a ancestralidade começa a ter seu valor reconhecido.

Não se trata de descaracterizar o método científico nem de limitar o alcance religioso, mas de criar uma simbiose que permita transcender os limites de ambos, ampliando o campo das hipóteses e criando uma prática religiosa sem dogmas ou crendices.

Com a proposta do autoconhecimento fundamentado em Ciência, Filosofia e Religião, o Espiritismo traz uma roupagem racionalmente necessária para a fé, e se apresenta como uma alternativa viável para uma compreensão ampla da vida e do papel do ser humano na Terra.

Científico, desde suas origens no século 19, o Espiritismo mostra-se como uma religião aberta ao questionamento permanente, flexível às evidências dos fatos e profundo na transcendência do psico-bio-dinâmico, orientando caminhos à essência do espírito que é o ator e o portador da cultura.

 
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